Em Munique,
Alemanha, a garagem do Dr. Klaus Maertens era repleta de invenções,
entre elas uma sola para sapatos feita quase totalmente de ar. Em Northampton,
Inglaterra, a família Griggs produzia calçados de alta qualidade
havia muitas décadas. Encontraram-se graças a um anúncio
no jornal, e juntas criaram as míticas botinas anfíbios Dr Martens
com Air Wair.
O primeiro modelo que surgiu no mercado, em abril de 1960, foi aquele com oito
ilhoses, rebatizado 1460 para lembrar a data; logo em seguida surge também
a botina com apenas três ilhoses, rebatizada 1461. Usada por soldados, operários,
carteiros e policiais, foi também adotada por estrelas do rock como Pete
Townshend dos Who, exatamente por sua conotação autenticamente working
class. Foi ele, o líder da banda símbolo do movimento modernista,
que a transformou em símbolo da subcultura (juntamente com a parka e a
Lambreta), seguido por Clash e Sex Pistols, e também por skinheads e hooligans.
Muito antes da Internet, MTV e SMS, a botina com costura amarela tornou-se um
ícone das contraculturas.
A onda de xenofobia que varreu a Inglaterra no início da década
de 1980 transformou muitos skins em militantes das organizações
de extrema direita. Muitos, mas não todos. E visto que ninguém intencionava
renunciar às Dr. Martens, eis que aparece a maneira de se distinguir. Cordões:
brancos para quem se posiciona à direita, vermelhos para os que se colocam
à esquerda.
Política, mas não apenas isso. Há também o estádio.
Também neste caso, ao menos até meados dos anos 80 - advento do
movimento casual e dos seus respectivos tênis - as Dr. Martens destacaram-se
nas arquibancadas. Até demais, a ponto de a polícia perder a paciência.
Inúmeras brigas nas quais aquelas solas faziam muito estrago. E então,
o recrudescimento das proibições. Antes de entrar no estádio,
tirem os cordões para deixar a botina menos perigosa. Apesar dos anos,
o estilo ainda permanece. O que mudou, porém foi a aura de antagonismo
e rebeldia que durante anos caracterizou essas botinas anfíbias. Da working
class de ontem ao glamour das Paris Hilton de hoje, o salto é enorme. Do
característico vermelho cereja, às mil tonalidades incluindo as
dotadas de florzinhas, as famosas botinas continuam em alta ao celebrar 50 anos.
(por Cláudia Martini, Milão)
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